Índia

Vale a pena visitar a Índia?

A realidade do turismo na Índia, para nós, foi bem diferente do que lemos em alguns blogs e grupos de mochileiros – não foi uma experiência legal!

Para quem curte um turismo mais real (viajar como um habitante da região), conhecendo de fato como as pessoas vivem, comendo em restaurante onde os habitantes comem e não caindo em pegadinha para turistas “tourist traps”,  dificilmente conseguirá isso na Índia.

Hey, foreigner!

Tudo ao seu redor se transforma porque você é estrangeiro, porque você se veste diferente, seu rosto é diferente, sua língua é diferente! É muito difícil ter experiências autênticas sendo um turista, a não ser que você tenha um amigo/familiar, ou pior: se você não parece com um indiano.

Mas, antes de falarmos um pouco da realidade dos turistas na região, vou enumerar os pontos positivos, pois meu objetivo não é, de forma alguma, desincentivar sua visita ao país, mas apenas relatar o que vimos e vivemos. Ressaltando também que muitas das nossas experiências podem ter sido fatos pontuais e não uma regra no país.

Motivos para conhecer a Índia:

  • Para quem gosta de comida apimentada, vai amar a culinária indiana;
  • Você irá abrir a cabeça sobre a disparidade que existe no mundo, não estou falando da pobreza do Brasil. Falo de algo que vai além da pobreza, falo de pessoas que são discriminadas e que não podem ser tocadas, falo da violência contra a mulher, e sua difícil inserção na sociedade;
  • Você irá descobrir uma nova cultura, novos costumes, novas religiões;
  • Se você for de algum país rico e nunca tenha visto pobreza ou desigualdade, vale mais a pena visitar a Índia do que o Brasil, pois você não correrá o risco de sofrer um assalto à mão armada, por exemplo. Mas para quem nasceu no Nordeste do Brasil nos anos 1990, não há nada novo debaixo do sol.
  • Para quem gosta de meditação / yoga e práticas semelhantes, é o paraíso;

O outro lado da moeda

Agora eu quero explicar porque nossa experiência no país não foi positiva e porque não voltaríamos em outra viagem.

Primeiramente, o turismo aqui não é aquele turismo tradicional. Se você tem um tempo de férias e deseja descansar, talvez a Índia não seja o local ideal. O turismo aqui torna-se complicado porque algo simples como ir na esquina e comprar água pode ser um pouco diferente se comparado ao seu ou a outros países – e aqui entra o primeiro quesito desagradável do país: os olhares!

Sabemos que isso é um traço típico da cultura indiana, mas pode ser pertubador (e foi, para nós). Os indianos não medem esforços para te olhar, eles olham fixamente para você como se estivessem tentando entender o que você está fazendo por ali, ou como se estivesse fazendo algo errado, ou como se fossem te abordar quando você não espera. 

Os olhares fixos incomodam as pessoas, pois traduzem um sentimento de exclusão. “Eu sei que não faço parte do seu grupo, mas será que eu também poderia estar nesse parque/monumento sem ser alvo de tanta observação / cochicho?”

Fadiga mental e cansaço foram constantes na Índia; as ruas são sujas, muito sujas, o nível de poluição nas cidades que visitamos eram visíveis (literalmente) e, além disso, o barulho ensurdecedor farão você querer voltar para o hotel para respirar um pouco.

Trânsito e viagens terrestres

Você já deve saber que o trânsito na Índia é um caos, mas queremos reforçar esse ponto. Os indianos desenvolveram um jeito próprio de dirigir, e, somando-se isso à infinidade de animais nas ruas, tudo fica MUITO, mas MUITO caótico. Algumas cenas bizarras que presenciamos nesses dias por aqui:

  • A buzina tem um outro significado. Servem para dizer “estou passando aqui”, e não para alertar sobre qualquer perigo. Inclusive, todos os caminhões têm os avisos “Blow Horn”, “Horn Please”, “Sound Horn”. Ou seja: BUZINE. Você sairá com a cabeça tonta de tanta buzina que ouvirá no trânsito indiano.
  • Camelos, vacas e búfalos soltos nas rodovias de alta velocidade. Isso mesmo – vimos um CAMELO solto em uma rodovia movimentada de alta velocidade (tipo as BR’s brasileiras).
  • As ruas são um Zoológico a céu aberto. Vimos de tudo trafegando nas ruas: macacos, camelos, elefantes, cabras, vacas, tudo. Adicione isso a uma direção extremamente agressiva, crianças, motos, tuk-tuks, carros, ônibus com pessoas até no teto (não estou exagerando), caminhões com carga absurdamente excessiva e você terá um retrato de quantas vezes achamos que íamos morrer.

 

Cobranças extorsivas

Fila para Ingressos de Alto Valor

Outra coisa que nos entristeceu foi cobrança exagerada para entrar nas atrações turísticas. Todas as entradas em parques/monumentos/templos custam de 10 a 20 vezes mais caro para estrangeiros! Sem exageros – pagamos 600 rupees para entrar em um parque enquanto um indiano paga 30 rupees.

Concordamos com alguma medida de incentivo para que a população local a conheça melhor sua história e monumentos, mas cobrar 20x mais de estrangeiros é uma verdadeira extorsão. Turistas não são “cash-cows”, nem deveriam ser vistos como tal. Nos sentimos extorquidos a todo momento.

No Brasil dos meus pais, viajar era coisa de rico, e com o tempo foi se popularizando. Cada dia mais pessoas saem de suas casas e vão um pouco mais longe descobrir algo pelo mundo.

Como você se sentiria sabendo que a pessoa que está ao seu lado pagou 20 vezes menos que você? Podendo, inclusive, ser bem bem mais rica que você, pois muitos indianos são absurdamente ricos! Dá um puta sentimento de injustiça, né?

 

Cultura

A injustiça faz parte da cultura da Índia. Apesar de não ser mais oficializada pelo governo, a sociedade indiana ainda vive em castas (classes sociais) que são estratos da sociedade designados unicamente pela hereditariedade. Explico: se você nasceu em uma família da casta X, você deve permanecer nela até o final da sua vida. Não faz sentido você querer progredir na vida, uma vez que sua casta não o permite. Além de uma marginalização social, isso é, para muitos indianos, uma prisão mental.

Logo, ricos sempre serão ricos e pobres sempre serão pobres, mantendo o ciclo das desigualdades e injustiças que dominam o país.

Restaurantes

Além disso, boa parte dos restaurantes que passamos nas cidades turísticas  cobravam valores exorbitantes para estrangeiros; Pagamos 1.000 rupees (+/- R$60,00) em um pão com frango assado. Nem na Suíça pagamos tão caro para comer quanto em alguns restaurantes da Índia.

Além disso, era muito difícil os pedidos virem conforme solicitado. Exemplo: pedimos um frango assado e veio frango cozido no molho de queijo! Essa situação se repetiu outras duas vezes. Em alguns locais, eles servem o que tem na cozinha e pronto!

Ah, pedir algo sem pimenta também era um quesito sem sucesso, mesmo enfatizando muito que não queríamos a comida apimentada, ela sempre vinha com bastante pimenta. Pedíamos para o garçom jurar de pé junto que não seria picante, mas não adiantava muita coisa. 🙁

Dica – reforce: “Not spicy, not hot, no curry, no ginger, no chilli, no peppers, no jalapeños, not picante, sem pimenta, pas de poivre”. Quanto mais línguas você adicionar ao pedido, melhor, mas já adianto que algumas vezes você não terá sucesso.

O que mais?

Na Índia ainda presenciamos um abismo que acreditamos ser comum no Brasil dos anos 80. Tipo: você entra em um banheiro público e vai ter alguém para abrir a torneira, dar sabão e papel, fazendo tudo para que você se sinta um verdadeiro ser da realeza britânica – isso tudo para conseguir alguns trocados para sobreviver.

Não bastasse o valor exorbitante pago para entrar nos templos, uma vez ou outra, após conferir seu pagamento na entrada do local, eles te param e pedem para você mostrar novamente que você pagou, com a clara intenção de te taxar novamente.

Nos taxaram duas vezes em um transporte, apesar de estarmos com um guia local do lado, e só devolveram o valor porque uma Indiana tomou nossas dores e começou a gritar abertamente com o pessoal que estava nos extorquindo, para que não saíssemos com essa impressão da Índia. Nosso muito obrigado a essa cidadã, mais uma vez.  

Não gostamos da cultura da desonestidade e acreditamos que a esmagadora maioria dos indianos também são honestos. Mas, abram o olho e sempre peçam ajuda dos habitantes locais!

 

Mas valeu a pena?!

SIM! Digo que sim! Porque estamos em uma volta ao mundo e a Índia estava bem no nosso caminho antes de atingir o Sudeste Asiático.

Foi legal ver tudo tão diferente, um país de cabeça para baixo, segundo os padrões ocidentais.

Mas o que queremos alertar é que: não venha pensando que aqui é um paraíso, ou o mundo da magia. Você terá dificuldade para se locomover, para comprar coisas simples, para acessar os locais turísticos.

Não desejaríamos passar um precioso tempo de férias regulares por aqui! Mas para quem está em uma grande viagem de volta ao mundo, foi legal!

Quer saber nosso roteiro? Como fizemos para nos locomover? Quanto gastamos? E quais cidades conhecemos em 2 semanas na Índia?

Em breve iremos detalhar tudinho para vocês!

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